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sobre

Adão Iturrusgarai – estrangeiro entre fronteiras


O que define um artista? O que caracteriza precisamente a prática artística? Apenas
com localização social e histórica é possível chegar em alguma categoria definidora, mesmo assim, provisória.
Desde as atividades de Marcel Duchamp, no início do século XX, ser artista pode
significar muitas coisas, nenhuma delas acabada e, mais importante, o que esse
profissional produz não é passível de ser definido a priori, nem o designa. Uma
pintura é realizada por alguém, torna-se, assim, artista? Um artista constrói um objeto, é arte? Essas brincadeiras de Duchamp revelaram-se bastante sérias porque mostram a complexidade das denominações e da tensa construção desse campo chamado arte. Depois de Duchamp, ser artista é correr risco: o artístico e o literal.
Do ponto de vista do debate conceitual contemporâneo, os limites estanques
confundem e são indesejáveis, já que muitos trabalhos apresentam sonoridades,
performances, têm dimensão arquitetônica, política, implicam em uma relação de
intervenção dos públicos, entre outros elementos, que resultam em indeterminação das linguagens específicas, sem que essas qualidades se transformem em negatividade ou impeçam sua compreensão como algo produzido no conjunto denominado de práticas artísticas: correr riscos.
Adão Iturrusgarai é um consagrado autor de quadrinhos, com visibilidade
internacional e uma produção bastante transgressora do ponto de vista temático, além da marca gráfica e expressiva inquestionável. Essa zona de conforto paradisíaca poderia ser simplesmente aproveitada sem muito esforço. No entanto, sua obsessão comunicativa e afirmativa, inclusive por conta de seu trabalho em quadrinhos, impõe uma busca constante, de caráter experimental. Exerce e apresenta um olhar detalhista para o campo com o qual quer inserir seus trabalhos, as histórias das artes ocidentais, um lugar consagrado, hierarquizado, cristalizado, no qual mesmo a conceituação que amplia definições de práticas artísticas é tratada de forma estereotipada.
Iturrusgarai aponta sua expressividade iconoclasta para essas histórias e digere o que interessa para sua apropriação. Das matrizes construtivo-expressionistas, pinça a
delicadeza de Paul Klee, sua motivação no trato com a cor em suas sutilezas, as
pequenas ironias, uma musicalidade sutil. Também de Klee, parece brotar uma certa
melancolia, afinal, aquele artista que apresenta elementos lúdicos é também autor de
Angelus Novus (1920), densamente comentado por Walter Benjamin, como emblema da catástrofe. Nessa mesma ambiência construtiva, a referência de J. Torres-Garcia é um eixo: serve como bússola para as sínteses formais e políticas. Com Philip Guston, procura estabelecer um diálogo direto: sarcasmo, agressividade e posicionamentos políticos claros. Como marca pessoal, Iturrusgarai exerce um desrespeito para com as categorias. Todas devem e podem ser transgredidas, borradas, detonadas, destruídas, para novas reconstruções. As fronteiras não só existem para que possam ser ultrapassadas, são, antes, engolidas, pela condição estrangeira que o artista se impõe.
Não se restringe aos alinhamentos ao campo pictórico da história da arte ocidental e hegemônica, mas busca estabelecer – e isso fica claro em suas pinturas – contato com o universo contracultural, comportamental. Suas referências. Um pano de fundo no qual a música, o cinema, as ruas e atitudes entram em polifonia.

Mirtes Marins de Oliveira/2019

 

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